Procura-se um analista

Encontrar um analista parece simples: basta escolher entre milhares de desconhecidos muito bem-formados que prometem compreender você antes mesmo de conhecê-lo. Antes, talvez valha perguntar o que se procura, quando se procura um analista.

Lívia Fromohls

7/31/20263 min ler

Antes de se chegar a qualquer tratamento, deparamo-nos com essa grande pedra no caminho: encontrar um profissional que disponha de certo tempo para nos ouvir.

Além de tempo, também produzimos, talvez não de forma literal, mas, ainda assim, uma certa lista de características contendo tudo aquilo que esse tal ser iluminado deve encarnar para gozar do privilégio de ser escolhido.

Pois bem, nada de errado. Afinal de contas, quando chegamos a esse ponto, isso provavelmente quer dizer que há algo que vai mal ou, ainda, que talvez já tenhamos tentado outras alternativas e, quiçá, outros profissionais e abordagens. Ao menos, esse costuma ser um imperativo comum no dito de quem procura por “ajuda”, na falta de uma palavra mais precisa.

Digo assim porque, amiúde, não é evidente do que se padece ou, ainda, se é mesmo o caso de falar em padecimento. De todo modo, fato é que a procura se alinha a uma certa sensação ou percepção de que seja hora de encontrar alguém ou alguma coisa que me faça sentir melhor; de entender por que algo que sei, ou talvez ainda não saiba, dói; ou de saber por que não me sinto bem quando, à primeira vista, parece estar tudo certo, mas sinto como se não estivesse.

E como escolher, afinal, diante de um cardápio quase infinito de profissionais que parecem tão sabidos e que não apenas oferecem condições de pagamento acessíveis, como também se adaptam ao meu tempo?

Como lidar com essa quantidade de informações, tão democraticamente bem distribuídas, que parecem saber demais sobre quem eu sou ou, ainda, sobre quem eu gostaria de ser? E, depois de tudo isso, ainda se corre o risco de sair com mais dúvidas e um diagnóstico mais ou menos já definido.

Por vezes, a procura em si mesma já é o bastante para que sejamos vencidos pelo cansaço que vem com o excesso de informações. Por isso, ouso oferecer aqui apenas uma pequena contribuição acerca de algumas questões iniciais, ainda que tenha ciência de que muito pouco se pode dizer que já não tenha sido dito pelos múltiplos especialistas disponíveis em algum canto dessa grande rede integrada que nos conecta a todos e a ninguém ao mesmo tempo.

Falando em pequena, parece que é exatamente disso que se trata. Tratamos mesmo disso que é difícil de dizer, de tão pequeno, mas que, ao mesmo tempo, é capaz de orientar escolhas, gostos, amores e consumos; disso que tem autonomia para produzir, muitas vezes sem consentimento, efeitos sobre aquilo que afirmo ser; ou, ainda, daquilo que talvez seja justamente o que me impede de alcançar o que eu gostaria de ser, de conseguir, de superar e, enfim, dificulta tantos outros verbos que, em conjunto, indicariam que já seria possível ser feliz.

Mas, se há tanto de terapêutico nas coisas e nas relações, como se ouve por aí, por que se deveria procurar um desconhecido qualquer que escute? Um desconhecido que, por mais bem referenciado e formado que seja, permanece, até o momento, um desconhecido.

Bom, é verdade que parece sempre suspeito que alguém cujo trabalho é ser justamente um desses afirme não haver outro modo. É um trabalho que não se pode fazer só. É necessário, por mais inconveniente que isso seja, que haja um outro capaz de encarnar essa função de ouvir essa coisa qualquer que se tem a dizer sobre essa diminuta coisa que faz com que uma vida inteira se desoriente.

E, por infelicidade, nenhuma inteligência infinita e robótica é capaz de substituir esse outro; os amores não são capazes de sustentar essa função; o companheirismo não consegue acompanhá-la até aí; e o fraterno, por si só, não basta para esse cuidado.

A relação da qual pode advir um tratamento, no fim, é, de fato, artificial, porém humana e mediada por um valor que se estabelece a muito custo. Sinto muito se me excedo na honestidade e, talvez, com isso, usurpe um tanto da magia e da beleza da experiência analítica, mas é o mais próximo de uma verdade que posso dizer.

Cuidado, por outro lado, ao prestar demasiada atenção às minhas palavras, caso ainda esteja me acompanhando. Por excelência, as palavras produzem mal-entendidos e os dizeres podem conduzir aos malditos. Por isso, se você procura algo imparcial, um técnico asséptico, talvez também esteja no lugar errado.

Por isso, atenção: nem tanto no céu das relações de amor e amizade, nem tanto no inferno da santa neutralidade científica. Espero que não se ofenda caso ainda tenha a esperança de encontrar aqui algumas dicas sobre a melhor forma de escolher um profissional que possa ajudar você. Como já deve ter notado, muito pouco posso oferecer nesse caso, mas prometo que estou bem perto do fim.

Escrevo tanto apenas para que, em meio a tanta procura, você tenha a oportunidade de se perguntar: o que é que, no fim das contas, você está procurando quando procura um analista, um psicólogo ou, por que não, um psiquiatra?

Isso, talvez, você possa me contar um dia.

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