Repetir até dizer: aprendendo a falar
Em uma língua estrangeira, repetimos até entender. Em uma análise, talvez seja preciso entender até estranhar.
PSICANÁLISELINGUAGEMMIGRAÇÃO
Andrie Kreusch | Psicóloga (CRP 08/30755)
8/6/20263 min ler
Repetir, répéter, wiederholen, repeat: seriam apenas sons sem sentido, não fosse nossa proximidade com a repetição desde muito cedo, quando aprendemos, a muitos rodeios, as palavras que se falam no lugar em que nascemos.
Quem, mais tarde, decide aprender a falar outras línguas sabe bem a sensação mágica de começar a decifrar palavras que antes pareciam não ter sentido algum. Reservadas algumas diferenças, algo parecido acontece quando se dirige a palavra a alguém, obedecendo à regra fundamental da psicanálise: falar o que vem à cabeça, mesmo que pareça absurdo, vergonhoso ou sem nexo.
Repetir é preciso
Podemos partir de uma queixa: uma dor no corpo sem explicação médica; um pensamento que sempre retorna; crises de ansiedade que se desencadeiam sem motivo aparente; a dor do fim de uma relação; a perda de uma pessoa amada; a dificuldade de se relacionar com outras pessoas; ou até mesmo a intenção de se conhecer melhor.
Independentemente de onde se parta, com a prática, esse exercício de fala pode abrir diferentes sentidos e, ao mesmo tempo, fazer aparecer algo que permanece constante: uma palavra específica se repete em diferentes histórias e lugares, conectando afetos e memórias que acreditávamos já ter esquecido ou que ainda não havíamos relacionado entre si.
Como no contato com uma língua estrangeira, vamos da repetição incompreensível ao momento em que as palavras podem suportar vários sentidos. Até que isso aconteça, pode passar muito tempo: boa parte da infância, no caso da aquisição da linguagem; meses ou anos para aprender um novo idioma; e um tempo indeterminado para as análises.
Compreender não basta
Em uma análise, contudo, compreender por que algo se repete nem sempre basta para que se deixe de repetir. Encontrar sentidos pode produzir efeitos terapêuticos, mas o trabalho de uma análise não se encerra aí: segue na direção de colocar em questão os sentidos que pareciam necessários, devolvendo às palavras uma dose de sua falta de sentido. Isso implica escutar não apenas o que se diz, mas também de que lugar se diz e a quem essa fala se dirige.
É nessa altura do caminho que se abre uma margem de liberdade — e a responsabilidade que a acompanha. Podemos, então, não apenas reconhecer os sentidos que nos produziram e que reproduzimos, mas também topar (ou não) com nossas próprias criações e repetições. Abre-se, assim, a possibilidade de responder de outra forma diante daquilo que, nas palavras, permanece indeterminado.
Cada um com seu português
Nesse passo, cada um pode se interrogar sobre um pedaço da língua que não se compartilha por inteiro (a tal lalíngua de Lacan): o ponto em que meu português não é igual ao seu. Não apenas porque as palavras significam coisas diferentes para cada um, mas porque seus sons, equívocos e ritmos deixam marcas diferentes em cada corpo.
Essa diferença é causa de muito mal-entendido, mas também motivo pelo qual nossa língua compartilhada se faz tão viva quanto nós, nunca totalmente decifrada, desaguando sempre em mais uma palavra, com mais um ou dois sentidos, nessa ou naquela cadeia associativa, no vai-e-vem do mar de sons que constitui a fala e o dizer.
Tradução automática desativada
Resta, por fim, uma diferença importante entre aprender a falar uma língua e fazer uma análise: enquanto um professor de línguas pode recorrer a regras e traduções consideradas corretas, um psicanalista não possui dicionário nem manual capaz de oferecer a tradução da fala de cada um. Seu trabalho é, antes, fazer valer a dimensão do dizer, escutando, interrogando e apontando o que nela se repete.
Na falta de uma tradução melhor, talvez seja possível repetir até que, através do que se diz, algo do dizer se faça ouvir. E você, o que me diz?
